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MAL PELA RAIZ
Jorge Cardoso
Gênero: Contos
Ano: 2004
128 págs.
ISBN 85-98248-01-0
“Entrei no hospital, amados. O rosto de Cristo fumegando. A gorda tinha tomado formicida com cerveja. Da barriga dela apareceram quatro cabecinhas. A doutora amarra o número do obituário. A filha chorando por cima. Eu entrei triunfal com a obreira e comecei a rezar a Lázaro. Putz, a irmã começou a gargalhar, num jeito desses que a boca fica repuxada pros lados e eu desconfiei: “calaboca, Satanaz!”. A gorda morta começou a pular na cama de ferro.
— Sai daqui e não atrapalha o meu trabalho — disse a doutora.
Descartes versus Schopenhauer, minha língua embolou e eu saí do hospital.
666, senti a ferida quando me alisei no corrimão da escada.”
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"Ao contrário da literatura hoje dominante, interessada no brilho e no evidente, Jorge Cardoso não se interessa pela composição de painéis sociais, nem na delimitação de comportamentos, ou de “tribos” urbanas. Busca, em vez disso, as frestas, as regiões desprezíveis, as sobras desse mundo que nos é oferecido como real. Tudo aos tropeções, numa respiração disrítmica que, em algumas páginas, se aproxima da poesia. Dura poesia, feroz, feita com aquilo que temos de pior. E esses restos, se nos chocam, não é pela novidade: eles vêm dos tempos mais remotos da ordem humana. Vêm do que guardamos de mais arcaico e íntimo, configuram a nossa origem. Literatura, em conseqüência, visceral, que busca leitores destemidos, prontos para o pior. A descida ao poço nos oferece, quem sabe, a chance de desconfiar das ilusões. O que já seria um bom começo. (José Castello)
"Às vezes eu fico pensando que a obsessão que o Jorge Cardoso tem por Jesus Cristo foi que o levou à terra do Papai Noel. Eu explico. Aliás, eu vivo tendo que explicar o Jorge Cardoso. Se ganhasse pra cada explicação, pagava minha conta de luz todo mês. Pois há quem não acredite que JC existe. Como se JC fosse explicável – como o seria um macaco albino. Um macaco albino não precisa de explicações.
Do mesmo mood não precisa de explicações um cara que fugiu pros EUA abandonando um curso de filosofia no Rio de Janeiro, tirado uns anos na Islândia limpando peixe, para daí cair num amor entre Calais e Dover e então no xadrez trocado por lutas de boxe em Hamburgo passando por hashishin marroquinos quando êxtases em Oslo para enfim criar seu boneco de never na gélida Umeå, norte da Suécia, próxima à Lapônia de renas e presentes perdidos, e pessoas que nunca, nunca falam a sua língua. Temo que nem mesmo JC fale a sua língua. Ou que, pior, só ele mesmo converse em seu idioma.
Papai Noel serrado ao meio – devasso com pétalas artificiais – sangue e suor o embalsamam. Muito antes de JC, íncubos e súcubos aterrorizavam a Suméria; onde começou tudo. JC antes de JC [más sabe el diablo por viejo que por diablo]. Donde tudo se explica neste sincopado Mal pela raiz."
(Ronaldo Bressane)
"O escritor Jorge Cardoso, assim como “O Sombra”, sabe o mal que se esconde no coração dos homens. Pode-se dizer tranqüilamente que o livro de estréia desse escritor carioca que mora na Suécia já é um dos melhores lançamentos de 2004. Trata-se de um livro violento, mas a violência a que me refiro não é meramente violência física ou verbal. Não que não exista. É claro que existe e muita. Mas a violência real a que me refiro corre subterrânea em seu texto. O livro é dinamite pura, mas é dinamite capaz de explodir suas entranhas e causar um estrago irremediável em almas não preparadas. Não é pra qualquer um. Mas devia ser."
(Mário Bortolotto)
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